O ministro Gilmar Mendes parece ter finalmente deixado escapar aquilo que muitos brasileiros já suspeitam há tempos: quando alguém tenta “dividir a culpa”, é porque sabe exatamente o peso que carrega.
Ao comentar o escândalo envolvendo o Banco Master, o decano do Supremo Tribunal Federal não apenas reconheceu a indignação da sociedade — algo impossível de esconder — como tratou de espalhar responsabilidades, numa tentativa pouco convincente de diluir o desgaste institucional. A pergunta é simples e direta: dividir o quê, exatamente?
Se não há nada a esconder, por que a pressa em repartir o ônus? Quem não deve, não teme — muito menos tenta construir uma narrativa coletiva para um problema que, até então, bate diretamente à porta do próprio tribunal.
Ao classificar as críticas como “miopia deliberada” ou fruto de “intenções obscuras”, Gilmar adota uma estratégia já conhecida: desqualificar o questionamento público em vez de enfrentá-lo com transparência. É o velho expediente de transformar crítica em ataque institucional — como se apontar inconsistências fosse crime, e não dever cívico.
O problema é que os fatos não ajudam.
A chamada Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, escancarou um cenário que vai muito além de “percepção negativa”. As investigações levantaram suspeitas graves envolvendo nomes de peso da própria Corte, como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes — ambos negando irregularidades, é verdade, mas cercados por números que, no mínimo, exigem explicações robustas.
Estamos falando de menções a valores milionários, contratos vultosos e relações que, para qualquer cidadão comum, seriam suficientes para uma devassa completa. Mas, quando se trata da mais alta Corte do país, a reação parece ser outra: blindagem, discurso institucional e tentativa de empurrar a crise para fora de seus próprios muros.
A crise, porém, não é de narrativa — é de credibilidade.
E não se resolve com frases de efeito em audiências públicas convocadas por Flávio Dino, nem com ataques retóricos a quem questiona. Resolve-se com transparência, investigação séria e, principalmente, com a disposição de assumir responsabilidades — algo que, até agora, parece estar em falta.
No fim das contas, a fala de Gilmar Mendes não alivia o STF. Ao contrário: reforça a percepção de que há, sim, um incômodo interno — e talvez até consciência de que algo muito errado aconteceu.
Porque quem tenta dividir culpa… dificilmente está totalmente inocente.