Desenrola Brasil: o anestésico populista que prepara a próxima crise

Por Fábio Roberto de Souza

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O Desenrola Brasil, agora rebatizado como "capítulo II",  foi vendido como redenção econômica.

Na prática, é mais um capítulo do manual brasileiro de empurrar problemas estruturais com a barriga — com requintes de oportunismo político.

A narrativa é sedutora: limpar o nome de milhões, devolver dignidade financeira, reaquecer o consumo. Bonito no discurso. Raso na essência. Porque o programa não resolve a causa do endividamento — apenas maquilha seus efeitos, criando a ilusão de recuperação enquanto planta a semente de um novo colapso.

Estamos diante de um típico “anestésico econômico”: alivia a dor imediata, mas não trata a doença. E pior — ao aliviar sem curar, incentiva a reincidência. O recado implícito ao mercado e ao cidadão é perverso: endivide-se, porque o Estado, mais cedo ou mais tarde, dará um jeito de perdoar parte da conta.

O resultado disso é previsível — e perigoso.

De um lado, o consumidor que renegocia sem ter renda sólida volta ao ciclo da inadimplência, muitas vezes em patamar ainda mais elevado. De outro, o sistema financeiro reage como sempre reagiu: restringindo crédito e encarecendo juros para compensar o risco artificial criado por políticas desse tipo. Quem paga a conta? O próprio cidadão — aquele que sequer entrou no programa.

E há ainda o componente mais incômodo: o timing. Não é coincidência que iniciativas dessa natureza floresçam em ambientes politicamente convenientes. Programas de renegociação em massa têm histórico de uso como ferramenta de capitalização eleitoral — geram sensação imediata de alívio, mesmo que à custa de instabilidade futura.

O problema é que economia não perdoa maquiagem. Ela cobra consistência.

O Desenrola Brasil não cria riqueza, não aumenta produtividade, não corrige distorções estruturais. Ele apenas reorganiza o problema no tempo — jogando para frente uma conta que, inevitavelmente, retorna mais cara.

Chamar isso de solução é, no mínimo, ingenuidade. Em termos mais francos: trata-se de um atalho populista com potencial de agravar o próprio problema que finge resolver.

E como todo atalho mal planejado, o destino costuma ser o mesmo: um buraco logo ali na frente — maior, mais profundo e muito mais difícil de sair.

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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas


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