A insistência de Luiz Inácio Lula da Silva em tentar empurrar novamente o nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal escancara um dos movimentos políticos mais controversos e perigosos de seu governo: a tentativa de transformar a mais alta Corte do país em um espaço de acomodação ideológica e fidelidade partidária.
A rejeição de Messias pelo Senado não foi um detalhe protocolar. Foi histórica. Pela primeira vez em mais de 130 anos, um indicado ao STF foi derrotado de forma contundente no plenário da Casa. E isso ocorreu porque parte expressiva do Senado compreendeu o que grande parcela da população já percebeu há tempos: Jorge Messias jamais foi visto como um nome técnico, independente ou equilibrado para a Suprema Corte. Sempre foi enxergado como um militante político de extrema confiança do PT e de Lula.
Mesmo diante de uma derrota humilhante, Lula agora trabalha nos bastidores para reenviar o mesmo nome ao Senado, numa espécie de desafio institucional ao Congresso. O recado parece claro: pouco importa a vontade do Senado ou o desgaste público; o objetivo é fazer prevalecer a força do Palácio do Planalto custe o que custar.
A grande pergunta que começa a ecoar em Brasília é: até onde Lula está disposto a ir para tentar transformar Jorge Messias em ministro do STF?
O histórico recente do governo mostra exatamente como o Lula opera quando encontra resistência política. Pressão sobre partidos aliados, liberação bilionária de emendas, distribuição de cargos, ampliação de espaços no governo para o Centrão, negociações de bastidores e articulações silenciosas já fazem parte do cotidiano de um governo que prometeu “nova política”, mas mergulhou profundamente no fisiologismo tradicional de Brasília.
Nos corredores do Congresso, cresce a percepção de que Lula poderá usar toda a máquina federal para tentar reverter a derrota de Messias. Ministérios, estatais, diretorias, fundos, verbas e acordos políticos podem novamente entrar no tabuleiro. Afinal, admitir a derrota significaria reconhecer publicamente que o presidente perdeu autoridade política até mesmo para aprovar um de seus aliados mais próximos.
E não se trata apenas de Jorge Messias. O que está em jogo é o próprio modelo de relação entre Executivo, Senado e Supremo. Muitos parlamentares enxergam a tentativa de recondução como uma afronta institucional e uma tentativa explícita de dobrar o Senado pelo desgaste ou pela pressão política.
A situação se torna ainda mais delicada porque o desgaste do STF junto à população e ao Congresso atingiu níveis inéditos nos últimos anos. Decisões envolvendo censura, perseguições políticas, investigações seletivas e os desdobramentos do 8 de janeiro ampliaram a desconfiança de parte significativa da sociedade em relação à Corte. Nesse cenário, insistir justamente em um nome identificado ideologicamente com o lulismo parece mais combustível para a crise institucional.
Nos bastidores, aliados de Lula tentam vender a narrativa de que insistir em Messias seria uma “demonstração de força”. Mas para muitos senadores, analistas e observadores políticos, a leitura é oposta: trata-se de uma demonstração de obsessão política e incapacidade de aceitar limites institucionais impostos pela democracia.
A rejeição de Messias representou uma das raras ocasiões em que o Senado efetivamente exerceu sua função constitucional de freio ao poder presidencial. E justamente por isso o episódio incomodou tanto o Planalto.
Agora, resta saber qual será o próximo movimento do regime. Se Lula decidir avançar novamente com Jorge Messias, o Brasil poderá assistir a uma escalada ainda maior da tensão entre Executivo e Legislativo — tudo para tentar colocar no STF um nome visto por muitos como símbolo máximo da militância petista dentro das instituições.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas