Mais uma vez, quando o assunto envolve investigados milionários, o Supremo Tribunal Federal parece funcionar em velocidade diferente da realidade vivida pelo cidadão comum. Desta vez, o centro da polêmica é o ministro Gilmar Mendes, que pediu vista no julgamento envolvendo Felipe Cançado Vorcaro, paralisando a análise do caso no STF.
O episódio reacendeu críticas antigas sobre aquilo que parte significativa da população já enxerga como um “garantismo seletivo” dentro da mais alta Corte do país: rigor para alguns, cautela infinita para outros — especialmente quando sobrenomes influentes e cifras bilionárias entram em cena.
Antes do pedido de vista, o ministro André Mendonça havia votado pela manutenção da prisão preventiva. O julgamento caminhava para consolidar entendimento mais duro diante da gravidade das investigações. Bastou, porém, a entrada de Gilmar Mendes para o processo entrar em compasso de espera.
Na prática, o pedido de vista funciona como um freio. E no Brasil dos tribunais superiores, tempo quase sempre joga a favor de quem possui estrutura milionária de defesa, influência política e capacidade infinável de recorrer.
A reação nas redes sociais foi imediata. Críticos passaram a apontar que o ministro novamente surge em casos rumorosos envolvendo empresários e investigados poderosos. Para muitos brasileiros, consolida-se a percepção de que existe no país um “STF dos comuns” e um “STF da elite”.
Gilmar Mendes, que há décadas acumula protagonismo, controvérsias e embates públicos, tornou-se símbolo de um modelo de Justiça que parcela expressiva da sociedade considera distante da realidade do cidadão que enfrenta delegacias lotadas, prisões preventivas intermináveis e morosidade judicial sem qualquer privilégio processual.
Enquanto isso, a sociedade acompanha mais um capítulo de um roteiro conhecido: operações policiais explosivas, manchetes nacionais, discursos de rigor… e, posteriormente, uma sucessão de decisões judiciais, recursos, revisões e pedidos de vista que transformam processos bilionários em maratonas sem fim.
No Brasil do trabalhador que espera anos por uma ação simples, o Supremo segue mostrando que, para determinados grupos, o tempo da Justiça parece sempre mais elástico.