O governo federal resolveu agora criar seu próprio serviço de streaming estatal. Sim, além da já bilionária estrutura da TV pública brasileira — que há anos consome recursos gigantescos do contribuinte sem audiência minimamente relevante — a máquina pública decidiu avançar para mais uma plataforma de comunicação controlada pelo Estado.
A pergunta inevitável é: para quê?
A experiência da própria Empresa Brasil de Comunicação, responsável pela TV Brasil, deveria servir de alerta. Trata-se de um sistema que recebe bilhões ao longo dos anos, mantém estruturas gigantescas, contratos milionários, salários elevados e programas que, em muitos casos, possuem audiência praticamente irrelevante diante da televisão aberta tradicional e das plataformas privadas.
Mesmo assim, insiste-se em ampliar o aparato estatal de mídia.
Agora surge a chamada “Tela Brasil”, um streaming público ligado ao governo federal, com acesso integrado ao Gov.br. E é justamente aí que começam as preocupações mais graves.
Por que exigir integração via Gov.br para assistir conteúdo audiovisual? Qual a real necessidade disso? O cidadão brasileiro precisa começar a se perguntar até onde vai o interesse estatal sobre hábitos pessoais, preferências culturais e comportamento digital da população.
Hoje dizem que é “para democratizar a cultura”. Amanhã, quem garante que não será utilizado para monitoramento comportamental, direcionamento ideológico ou criação de um ecossistema estatal de informação cada vez mais fechado?
A história mundial mostra que todo governo com vocação excessivamente centralizadora começa exatamente assim: ampliando mecanismos de comunicação sob controle direto do Estado, enquanto enfraquece, regula, sufoca ou demoniza veículos independentes.
É impossível não lembrar de experiências autoritárias mundo afora, onde a comunicação deixou de ser plural para se tornar instrumento político de governos. Evidentemente, o Brasil ainda está muito distante de regimes extremos como North Korea, mas o debate sobre liberdade, pluralidade e concentração estatal da narrativa precisa ser feito antes — e não depois.
O problema não é existir conteúdo cultural brasileiro. O Brasil produz cinema, documentários e séries de enorme qualidade. O problema é o Estado querer se transformar em produtor, financiador, distribuidor, controlador da plataforma e ainda potencial detentor dos dados de quem consome aquele conteúdo.
Tudo isso pago pelo contribuinte.
Enquanto isso, segurança pública colapsa, hospitais enfrentam dificuldades, estradas deterioram e milhões de brasileiros seguem sufocados por impostos. Mas aparentemente havia urgência nacional em criar mais uma estatal de mídia digital.
O receio legítimo de muitos brasileiros não é assistir a filmes nacionais. O medo é outro: ver crescer lentamente uma estrutura estatal de comunicação cada vez mais poderosa, cada vez mais cara e cada vez mais interessada em definir o que o cidadão deve assistir, consumir e acreditar.