O Brasil chegou a um ponto crítico de sua história econômica e social. E talvez o mais preocupante seja perceber que parte da classe política parece incapaz — ou desinteressada — de enfrentar a raiz real do problema.
Os números expõem uma realidade brutal: o país possui hoje cerca de 49 milhões de trabalhadores formais sustentando uma estrutura estatal gigantesca, uma carga tributária sufocante e dezenas de milhões de brasileiros dependentes direta ou indiretamente de programas assistenciais. Em diversos estados da federação, especialmente no Norte e Nordeste, o número de beneficiários do Bolsa Família já rivaliza ou supera o total de empregos formais existentes.
Isso não é apenas um dado estatístico. É um sinal gravíssimo de esgotamento estrutural.
O mais alarmante é que essa realidade não nasceu ontem. Ela foi construída ao longo de décadas de populismo, aparelhamento ideológico, destruição gradual da competitividade nacional, hipertrofia estatal e abandono completo de reformas profundas que poderiam libertar milhões de brasileiros da dependência econômica do governo.
Nenhuma sociedade prospera de forma sustentável quando a base produtiva diminui enquanto a dependência estatal aumenta continuamente. Essa conta simplesmente não fecha. E não existe discurso político, marketing governamental ou narrativa ideológica capaz de mudar matemática básica.
Enquanto países desenvolvidos discutem inteligência artificial, produtividade, inovação industrial, competitividade global e modernização econômica, o Brasil continua preso a debates que muitas vezes aprofundam ainda mais sua fragilidade estrutural.
É justamente nesse cenário delicadíssimo que o governo Lula e setores alinhados ao PT travam no Congresso Nacional uma intensa disputa política em torno do fim da escala 6x1.
A proposta é vendida ao público como avanço social inevitável. O discurso parece sedutor: menos dias trabalhados, mais qualidade de vida, mais dignidade. Em teoria, soa maravilhoso. O problema começa quando se confronta teoria com realidade econômica.
O Brasil não é uma economia europeia altamente produtiva, tecnologicamente avançada e com forte capacidade industrial consolidada. O Brasil possui uma das maiores cargas tributárias do mundo emergente, enfrenta insegurança jurídica permanente, juros elevados, excesso de burocracia, baixa produtividade média e um ambiente extremamente hostil para quem empreende.
Pequenas e médias empresas — justamente as maiores empregadoras do país — já operam no limite da sobrevivência. Comércio, supermercados, logística, farmácias, restaurantes, hotéis, indústrias e inúmeros setores dependem diretamente de escalas contínuas para funcionar. Reduzir jornadas sem ganho proporcional de produtividade significa, na prática, aumento brutal de custos operacionais.
E quando o custo explode, existem apenas quatro caminhos possíveis:
demissões,
automatização acelerada,
informalidade
ou fechamento das empresas.
Não existe mágica econômica.
Os defensores mais radicais dessas medidas frequentemente ignoram um fator essencial: empresas não geram empregos por caridade ou ideologia. Elas geram empregos quando conseguem sobreviver, produzir, crescer e obter viabilidade financeira.
O problema brasileiro é ainda mais profundo porque o país já convive com um gigantesco exército de dependência estatal. E aqui surge talvez a pergunta mais desconfortável de todas:
O que efetivamente foi feito ao longo de décadas para retirar milhões de brasileiros da dependência assistencial permanente?
Programas sociais são necessários. Em muitos casos, salvam vidas. Combater fome e miséria é obrigação moral de qualquer nação minimamente civilizada. Mas assistência social séria deveria funcionar como ponte para autonomia — jamais como destino definitivo de gerações inteiras.
O sucesso verdadeiro de um programa assistencial ocorre quando o cidadão consegue sair dele com dignidade, conquistando independência através do trabalho, do empreendedorismo, da qualificação profissional e da ascensão econômica.
Mas o Brasil parece ter transformado o assistencialismo em modelo estrutural de gestão social.
Em muitas regiões do país consolidou-se uma lógica perversa:
o Estado distribui benefícios,
mantém populações inteiras dependentes,
e ao mesmo tempo falha em entregar educação de qualidade, ambiente econômico saudável, industrialização forte, segurança jurídica e oportunidades reais de crescimento.
O resultado é devastador:
uma sociedade economicamente frágil,
uma população aprisionada em ciclos de baixa renda,
e uma base produtiva cada vez mais pressionada.
O trabalhador formal brasileiro tornou-se uma espécie de sobrevivente fiscal. Trabalha sob uma das maiores cargas tributárias do planeta, sustenta uma máquina pública extremamente cara e ainda presencia discussões políticas que frequentemente ignoram completamente a capacidade real da economia de suportar novas obrigações.
A consequência inevitável pode ser explosiva:
menos empregos formais,
mais informalidade,
mais empresas encerrando atividades,
menos arrecadação,
mais dependência estatal
e crescimento contínuo da instabilidade econômica.
E então surge a pergunta inevitável que ninguém parece querer responder com honestidade:
Quem sobrará para trabalhar, produzir, empreender e pagar essa conta gigantesca no futuro?
Porque nenhum país consegue sobreviver indefinidamente quando o setor produtivo é sufocado, o empreendedor é tratado como inimigo e a dependência estatal cresce em ritmo superior à geração de riqueza.
O Brasil precisa urgentemente parar de administrar pobreza e começar a construir prosperidade.
Isso exige reformas profundas.
Exige educação técnica séria.
Exige liberdade econômica.
Exige industrialização moderna.
Exige segurança jurídica.
Exige redução brutal da burocracia.
Exige estímulo real ao empreendedorismo.
Exige valorização do trabalho formal.
Exige produtividade.
Exige responsabilidade fiscal.
Sem isso, qualquer discurso social vira apenas retórica eleitoral de curto prazo.
E a história econômica mundial mostra, repetidamente, que nenhum populismo consegue desafiar eternamente a realidade matemática sem produzir consequências devastadoras mais cedo ou mais tarde.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas