Gilmarpalooza: O baile da desconexão entre a elite togada e o Brasil real

Por Fábio Roberto de Souza

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O que primeiro chamou a atenção nesta edição do chamado "Gilmarpalooza" não foram os debates, as palestras ou os discursos pomposos cuidadosamente preparados para consumo da elite política e jurídica brasileira. O que chamou a atenção foi justamente o esvaziamento do evento.

E isso não parece ter ocorrido por acaso.

É possível que muitas autoridades, empresários e figuras públicas tenham concluído que este talvez não fosse o melhor momento para aparecer sorrindo em fotografias ao lado de personagens que vêm ocupando espaço no noticiário em razão de controvérsias envolvendo relações institucionais, contratos milionários, negócios privados, conflitos de interesse e questionamentos cada vez mais frequentes sobre a promiscuidade existente entre parcelas do poder político, econômico e judicial brasileiro.

Afinal, para quem vive de imagem pública, currículo e reputação, talvez não seja exatamente recomendável participar de um evento que, aos olhos de uma parcela crescente da população, deixou há muito de ser um encontro acadêmico para se transformar em uma espécie de feira anual do poder, onde ministros, políticos, empresários, escritórios influentes e integrantes da alta burocracia nacional circulam em ambiente de absoluta intimidade institucional.

Talvez alguns convidados tenham simplesmente concluído que havia compromissos mais produtivos.

Talvez outros tenham percebido que, em tempos de crescente desconfiança popular nas instituições, fotografias em corredores luxuosos de Lisboa não produzem exatamente os melhores dividendos políticos.

Mas se o público foi menor, o distanciamento da realidade permaneceu intacto.

E foi justamente nesse ambiente que surgiram algumas das manifestações mais impressionantes — e preocupantes — do evento.

As falas de ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, revelaram aquilo que muitos brasileiros já suspeitam há anos: a existência de uma bolha institucional que parece cada vez mais incapaz de compreender a vida real das pessoas comuns.

Enquanto bilhões de seres humanos utilizam diariamente redes sociais para trabalhar, estudar, empreender, consumir informação, manter contato com familiares, divulgar negócios e exercer sua liberdade de expressão, parte da cúpula do Judiciário brasileiro parece enxergar esse fenômeno global quase como uma ameaça civilizatória.

Em suas exposições, voltou a aparecer o discurso de que estaríamos diante de um suposto "feudalismo tecnológico", conceito que vem sendo utilizado para justificar uma crescente intervenção estatal sobre plataformas digitais, circulação de conteúdo e liberdade de expressão.

O raciocínio implícito é quase ofensivo.

Segundo essa visão, bilhões de pessoas espalhadas pelo planeta seriam facilmente manipuláveis, incapazes de discernimento, incapazes de pensamento crítico e permanentemente vulneráveis àquilo que leem ou assistem.

Já uma pequena elite togada, iluminada por uma espécie de superioridade intelectual autoconcedida, possuiria a capacidade exclusiva de distinguir a verdade do erro, o aceitável do inaceitável, o que pode ser dito e o que deve ser silenciado.

A conclusão inevitável dessa lógica é simples e assustadora: o povo não pode ser plenamente livre porque o povo não seria suficientemente capaz para lidar com a própria liberdade.

Eis o verdadeiro problema.

Não se trata mais apenas de combater crimes, punir abusos ou responsabilizar ilícitos.

O que se observa é uma crescente tentativa de transformar órgãos de Estado em árbitros permanentes da opinião pública.

Toda divergência passa a ser vista com suspeita.

Toda crítica institucional é tratada como potencial ameaça.

Toda resistência ao pensamento dominante é frequentemente enquadrada como risco à democracia.

Enquanto isso, o Brasil real segue existindo do lado de fora dos auditórios luxuosos.

O cidadão comum acorda cedo para trabalhar.

Enfrenta impostos abusivos.

Lida com violência crescente.

Convive com serviços públicos precários.

Sofre com a insegurança econômica.

Busca sobreviver em um ambiente cada vez mais difícil.

Mas nada disso parece ocupar o centro das preocupações daqueles que, do alto de suas posições institucionais, demonstram obsessão quase permanente com redes sociais, algoritmos, plataformas digitais e mecanismos de controle da circulação de ideias.

O mais curioso é que aqueles que mais falam em defesa da democracia frequentemente demonstram enorme desconforto quando a própria sociedade passa a exercer livremente sua capacidade de crítica.

A impressão transmitida pelo evento é a de uma aristocracia institucional cada vez mais fechada em si mesma, convencida de que apenas ela compreende os riscos do mundo moderno e de que apenas ela possui legitimidade intelectual para decidir os limites do debate público.

É uma visão profundamente paternalista.

E perigosamente autoritária.

Porque toda vez que uma autoridade passa a acreditar que a população necessita de tutela permanente para pensar, falar ou formar opinião, deixa-se de fortalecer a democracia e passa-se a enfraquecê-la.

O verdadeiro risco para as sociedades livres não está no fato de bilhões de pessoas terem voz.

O verdadeiro risco surge quando alguns poucos passam a acreditar que somente eles deveriam tê-la.

Ao final do evento, ficou a sensação de que o maior problema discutido em Lisboa não eram as redes sociais.

Não era a tecnologia.

Não eram os algoritmos.

Era algo muito mais preocupante.

A crescente desconexão de uma parcela do poder brasileiro em relação ao mundo real e sua aparente convicção de que a sociedade deve ser permanentemente conduzida, supervisionada e corrigida por aqueles que se consideram intelectualmente superiores ao restante da população.

Uma ideia que não combina com liberdade.

Não combina com democracia.

E muito menos combina com uma República.

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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas

 


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