O brasileiro trabalha.
O brasileiro paga imposto.
O brasileiro sustenta uma das máquinas públicas mais caras do planeta.
E, pelo visto, agora também deve financiar a defesa internacional dos ministros do Supremo Tribunal Federal quando eles passam a ser questionados fora da confortável bolha de poder construída em Brasília.
A decisão de Edson Fachin de autorizar a Advocacia-Geral da União a atuar em favor dos interesses decorrentes do caso envolvendo Alexandre de Moraes nos Estados Unidos é mais um capítulo do espetáculo permanente de autoproteção institucional que tomou conta da mais alta Corte do país.
A lógica é simples.
Quando um ministro concentra poderes extraordinários, assina decisões monocráticas de enorme impacto político, interfere em plataformas, determina bloqueios, suspensões e remoções de conteúdos, tudo é apresentado como manifestação individual de sua autoridade constitucional.
Mas quando surgem questionamentos, críticas ou consequências internacionais dessas decisões, o roteiro muda imediatamente.
O ministro desaparece.
Surge o "Estado".
Surge a "democracia".
Surge a "soberania nacional".
Surge a "defesa das instituições".
Tudo vira um gigantesco escudo retórico para impedir que o foco permaneça onde deveria estar: nos atos concretos praticados por agentes públicos investidos de enorme poder.
O mais impressionante é a naturalidade com que isso acontece.
Nenhum trabalhador brasileiro recebe a proteção da República quando é processado.
Nenhum empresário recebe a proteção da República quando enfrenta litígios.
Nenhum cidadão recebe a proteção da República quando precisa responder por seus atos.
Mas, aparentemente, existe uma categoria superior da cidadania brasileira.
Uma categoria que habita gabinetes refrigerados, circula por eventos exclusivos, fala em nome da democracia e, ao mesmo tempo, parece incapaz de admitir que também possa ser submetida ao escrutínio.
O discurso da soberania virou uma espécie de passe de mágica.
Questionou um ministro?
Ataque à democracia.