A cena chega a ser cômica. Uma comitiva de parlamentares extremistas de esquerda, ligados ao regime petista atravessa milhares de quilômetros, desembarca nos Estados Unidos e tenta vender a narrativa de que está realizando uma missão de altíssima relevância institucional. Na prática, porém, o espetáculo lembra muito mais uma excursão política internacional financiada pelo bolso do contribuinte brasileiro do que qualquer iniciativa capaz de produzir resultados concretos para o país.
Jandira Feghali, André Janones, Pedro Uczai e Pedro Campos foram a Washington com a pretensão de mobilizar autoridades americanas contra adversários políticos brasileiros. Enquanto isso, o Brasil segue atolado em problemas reais: insegurança pública, inflação aumentando e economia ruindo, filas na saúde, violência crescente, estradas precárias, carga tributária sufocante e insegurança jurídica plena.
Mas aparentemente nada disso é prioridade suficiente para impedir a viagem.
O episódio expõe uma das maiores contradições da esquerda brasileira contemporânea. Durante décadas, muitos desses mesmos grupos transformaram os Estados Unidos no grande vilão de seus discursos. Criticaram o capitalismo americano, denunciaram o "imperialismo ianque", atacaram governos americanos e venderam a imagem de que Washington representava tudo aquilo que combatiam.
Entretanto, basta surgir uma oportunidade de aparecer nos Estados Unidos, que a resistência ideológica desaparece numa velocidade impressionante. O antiamericanismo dura até a hora de embarcar no avião.
A viagem também levanta outra questão inevitável: qual foi exatamente o resultado prático obtido? Houve alguma medida concreta? Alguma decisão oficial? Algum benefício objetivo para os brasileiros que pagaram a conta?
Ou o saldo da missão resume-se a fotografias, reuniões protocolares, entrevistas para militantes e publicações em redes sociais destinadas a produzir manchetes para consumo doméstico?
A participação de André Janones torna a situação ainda mais peculiar. O deputado, frequentemente envolvido em polêmicas e investigações, resolveu assumir o papel de porta-voz moral da comitiva, distribuindo ironias e ameaças retóricas como se estivesse em uma transmissão de internet, e não em uma agenda que supostamente deveria representar interesses institucionais do Brasil.
No fim das contas, fica a impressão de que alguns parlamentares descobriram uma fórmula conveniente: transformar disputas políticas internas em roteiro internacional, garantir alguns dias circulando em Washington, produzir material para redes sociais e voltar ao Brasil alegando que participaram de uma missão histórica.
Histórica, talvez.
Mas muito mais pela capacidade de gastar dinheiro público para alimentar narrativas políticas do que por qualquer resultado efetivo que tenha melhorado a vida de um único brasileiro.
Enquanto o contribuinte trabalha, paga impostos e enfrenta os problemas cotidianos do país, uma parte da classe política segue demonstrando que, para alguns, o sonho americano continua muito vivo — especialmente quando a passagem e estadia são pagaa com recursos do povo.
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Fábio Roberto de Souza é jornalista, atuando como colunista e articulista do BN Brasil e colaborando com diversos veículos de comunicação. Desenvolve análises e conteúdos voltados à política, economia, educação, direitos do consumidor e temas institucionais, com foco na informação responsável, no debate público qualificado e na defesa do interesse coletivo - instagram: @fabiorobertodesouzas