Mais uma vez, uma decisão tomada em gabinetes distantes da realidade do litoral catarinense acaba atingindo diretamente quem vive do trabalho, da tradição e do suor diário: os pescadores artesanais da tainha.
O anúncio do regime Lula determinando o encerramento da pesca da tainha por arrasto de praia em Santa Catarina representa muito mais do que uma simples medida administrativa. Trata-se de uma decisão que afeta famílias, comunidades inteiras, a economia local e uma tradição que atravessa séculos de história.
A pesca artesanal da tainha não nasceu em Brasília. Não foi criada por burocratas, técnicos ou ministros. Ela faz parte da identidade cultural catarinense desde a chegada dos colonizadores açorianos, sendo reconhecida oficialmente como patrimônio cultural do Estado. Em muitas localidades, a safra da tainha não é apenas uma atividade econômica: é um modo de vida transmitido de pais para filhos há gerações.
Enquanto autoridades do regime analisam números em planilhas e impõem limites cada vez mais rígidos, milhares de pescadores convivem com uma realidade concreta. São famílias que dependem da safra para complementar sua renda anual, comerciantes que movimentam seus negócios, restaurantes que fortalecem o turismo gastronômico e comunidades inteiras que encontram na pesca uma das principais fontes de sustento.
A justificativa oficial é o cumprimento de cotas estabelecidas pelo próprio regime. O problema é que, na prática, o modelo adotado transforma uma atividade tradicional em refém de decisões centralizadas, muitas vezes desconectadas das características específicas da pesca artesanal catarinense.
O sentimento que se espalha entre pescadores e lideranças locais é de abandono. Muitos enxergam uma crescente concentração de poder em Brasília, onde decisões que impactam profundamente a vida de comunidades tradicionais são tomadas sem a devida participação daqueles que efetivamente conhecem o mar, os ciclos da natureza e a realidade da pesca.
Não se discute a importância da preservação ambiental. Toda atividade econômica sustentável depende da conservação dos recursos naturais. O que se questiona é a falta de equilíbrio entre preservação e sobrevivência. É possível proteger o meio ambiente sem sufocar comunidades inteiras. É possível fiscalizar sem destruir tradições. É possível regulamentar sem ignorar a realidade de quem vive do mar.
Santa Catarina não está defendendo privilégios. Está defendendo sua história, sua cultura e o direito de milhares de trabalhadores continuarem exercendo uma atividade honesta que ajudou a construir o litoral catarinense ao longo de mais de dois séculos.
O que revolta os catarinenses é perceber que, enquanto o regime federal fala em inclusão, respeito às comunidades tradicionais e valorização da cultura popular, na prática impõe restrições que atingem justamente aqueles que mantêm vivas as tradições mais autênticas do país.
Quando Brasília fecha as redes da pesca artesanal, não está apenas interrompendo uma temporada. Está colocando em risco um patrimônio cultural, econômico e social que pertence a todos os catarinenses.
E cada vez que uma tradição secular é tratada como mero detalhe burocrático por um regime cada vez mais centralizador, cresce a sensação de que quem decide está cada vez mais distante de quem realmente produz, trabalha e sustenta este país.