Copa não pode nos fazer esquecer do Master e dos R$ 129 milhões

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A Copa do Mundo começou. Como acontece a cada quatro anos, milhões de brasileiros voltarão seus olhos para os gramados, para os resultados, para a esperança de ver a seleção nacional fazer uma grande campanha. É natural. O futebol faz parte da identidade cultural do país e, por algumas semanas, ocupará manchetes, conversas e redes sociais.

O problema não está em acompanhar a Copa. O problema surge quando o espetáculo esportivo se transforma em cortina de fumaça para temas que continuam exigindo respostas, fiscalização e transparência. E poucos assuntos merecem mais atenção neste momento do que o escândalo envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e os questionamentos levantados sobre contratos milionários relacionados a pessoas próximas a integrantes da mais alta Corte do país.

Para muitos críticos, o maior risco não é apenas a falta de esclarecimentos. É a possibilidade de que o caso seja lentamente empurrado para o esquecimento coletivo, soterrado por novos assuntos, pela rotina e pela fadiga da opinião pública. Afinal, quanto mais tempo passa sem respostas, menor tende a ser a pressão social por explicações.

A recente nomeação de Renata Gil, companheira do ministro Dias Toffoli, para função de destaque no Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Nunes Marques, reacendeu debates sobre relações institucionais, transparência e a necessidade permanente de vigilância por parte da sociedade. Não se trata necessariamente de questionar qualificações profissionais, mas de lembrar que a confiança pública depende também da capacidade das instituições de afastar dúvidas legítimas e prestar esclarecimentos quando surgem situações sensíveis.

Nesse contexto, o caso Banco Master continua sendo uma questão incontornável. O contrato de R$ 129 milhões firmado entre o banco e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes já havia causado perplexidade pelos valores envolvidos. Posteriormente, a revelação da existência de uma minuta de contrato adicional de R$ 50 milhões ampliou ainda mais os questionamentos.

São perguntas simples e legítimas. Quais serviços justificariam cifras dessa magnitude? Como esses valores foram definidos? Quais critérios econômicos sustentam contratos tão acima dos padrões normalmente praticados pelo mercado? Por que até hoje não houve uma prestação de esclarecimentos públicos capaz de dissipar definitivamente as dúvidas?

O que preocupa muitos observadores é a sensação de que existe uma enorme disposição institucional para investigar quem divulga informações, enquanto o conteúdo das revelações recebe atenção muito menor. Em vez de respostas claras, multiplicam-se disputas jurídicas, arquivamentos, negativas e um ambiente de crescente intimidação contra quem insiste em fazer perguntas.

Independentemente das posições políticas de cada cidadão, um princípio deveria ser universal: quanto maior o poder exercido por uma autoridade pública, maior deve ser a exigência de transparência. A regra não pode valer apenas para adversários políticos, empresários comuns ou cidadãos sem influência. Ela precisa alcançar todos, especialmente aqueles que ocupam os cargos mais elevados da República.

Por isso, a Copa do Mundo não pode servir como anestésico cívico. O brasileiro pode torcer, vibrar, comemorar e acompanhar cada partida. Mas não deve esquecer dos temas que continuarão existindo quando o último jogo terminar.

O caso Banco Master não desaparece porque as manchetes mudam. Os contratos continuam existindo. As dúvidas continuam sem resposta. E a obrigação de fiscalização por parte do Congresso, dos órgãos de controle, da imprensa e da sociedade permanece exatamente a mesma.

Em uma democracia saudável, perguntas legítimas jamais deveriam ser tratadas como afronta. Pelo contrário: são elas que impedem que o poder se torne intocável e que escândalos potencialmente graves desapareçam na conveniência do esquecimento.


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